terça-feira, 31 de outubro de 2017

Encontro com ANA CORREIA

O mês de outubro é o mês internacional das bibliotecas escolares.
Parafraseando José Jorge Letria, ler faz bem e os livros, além de abrir os horizontes, de permitir viajar no tempo e no espaço, têm a particularidade de partilharem connosco, pela vida fora, a magia da aventura e do saber.
Os alunos do 7º C, no âmbito da disciplina de Português e do plano anual de atividades da BE e do projeto A Ler +, participaram na atividade “ Ler na BE”, fazendo uma leitura dramatizada do conto literário “ Ladino”, retirado da obra Os Bichos, de Miguel Torga, escritor transmontano, autor da obra “ O Reino Maravilhoso de Trás –os Montes, região que ele tão bem soube descrever como ninguém. Esta leitura permitiu aos alunos tomar contacto com uma realidade rural, cultural e linguística que, pouco a pouco, vai desaparecendo.
De salientar nesta atividade a participação de uma encarregada de educação, Ana Correia, que aceitou amavelmente o convite para participar na leitura dramatizada do texto.
O objetivo desta iniciativa visa, assim, promover hábitos e o gosto pela leitura.

Salete Valente
 
No dia 29 de Outubro os alunos da professora Salete Valente encontraram-se com Ana Correia (encarregada de educação) na biblioteca MJA para ler o conto "Ladino" de Miguel Torga.
Uma experiência a repetir.
Aqui está o texto:

Ladino de Miguel Torga 
Grande bicho, aquele Ladino, o pardal! Tão manhoso, em toda a freguesia, só o padre Gonçalo. Do seu tempo, já todos tinham andado. O piolho, o frio e o costelo não poupavam ninguém. Salvo-seja ele, Ladino.
Mas como havia de lhe dar o lampo, se aquilo era uma cautela, um rigor!... E logo de pequenino. Matulão, homem feito, e quem é que o fazia largar o ninho?! Uma semana inteira em luta com a família. Erguia o gargalo, olhava, olhava, e - é o atiras dali abaixo!... A mãe, coitada, bem o entusiasmava. A ver se o convencia, punha-se a fazer folestrias à volta. E falava na coragem dos irmãos, uns heróis! Bom proveito! Ele é que não queria saber de cantigas. Ninguém lhe podia garantir que as asas o aguentassem. É que, francamente, não se tratava de brincadeira nenhuma! 
Uma altura! Até a vista se lhe escurecia... O pai, danado, só argumentava às bicadas, a picá-lo como se pica um boi. Pois sim! Ganhava muito com isso. Não saía, nem por um decreto. E, de olho pisco, ali ficava no quente o dia inteiro, a dormitar. Pobre de quem tinha de lho meter no bico... 
Contudo, um dia lá se resolveu. Uma pessoa não se aguenta a papas toda a vida. Mas não queiram saber... Quase que foi preciso um pára-quedas. 
Mais tarde, quando recordava a cena, ainda se ria. E deliciava-se a descrever as emoções que sentira. Arrepios, palpitações, tonturas, o rabinho tefe-tefe. E a ver as coisas baças, desfocadas. Agoniado de todo! Valera-lhe a santa da mãe, que Deus haja. - Abre as asas, rapaz, não tenhas medo! Força! De uma vez! 
Tinha de ser. Fechou os olhos, alargou os braços, e atirou o corpo, num repelão... Com mil diabos, parecia que o coração lhe saía pelos pés! Ar, então, viste-o. 
Deu às barbatanas, aflito. 
- Mãe! 
Mas afinal não caía, nem o ar lhe faltava, nem coisíssima nenhuma. Ia descendo como uma pena, graças aos amortecedores. Mais que fosse! No peito, uma frescura fina, gostosa... Não há dúvida: voar era realmente agradável! E que bonito o mundo, em baixo! Tudo a sorrir, claro e acolhedor... 
2 A mãe, sempre vigilante e mestra no ofício, aconselhou-lhe então um bonito antes de aterrar. Dar quatro remadas fundas, em cheio, e, depois, aproveitar o balanço com o corpo em folha morta, ao sabor da aragem...
 Assim fez. Os lambões dos irmãos nem repararam, brutos como animais! A mãe é que disse sim senhor, com um sorriso dos dela... 
E pousou. Muito ao de leve, delicadamente, pousou no meio daquela matulagem toda, que se desunhava ao redor duma meda de centeio. 
Terra! Pisava-a pela primeira vez! Qualquer coisa de mais áspero do que o veludo do ninho, mas também quente e segura. Deu alguns passos ao acaso, a tirar das cócegas nos dedos um prazer de que ainda tinha saudades. Depois, comeu. Comeu com fome e com gula os grãos duros que o sol esbagoava das espigas cheias. Numa bicada imprecisa, precipitada, foi a ver, engolira uma pedra. Não lhe fez mal nenhum. Pelo contrário. Ricos tempos! Desde o entendimento ao estômago, estava tudo inocente, puro. Fosse agora, e era indigestão pela certa. Arrombadinho de todo! Por isso fazia aquela dieta rigorosa... 
Falava assim, e ria-se, o maroto. Nem pejo tinha da mocidade, que o ouvia deslumbrada. 
- A vergonha é a mãe de todos os vícios - costumava dizer. 
E tanto fazia a Ti Maria do Carmo pôr espantalho no painço, como não. Ladino, desde que não lhe acenassem com convite para arrozada numa panela, aos saltinhos ia enchendo a barriga. Depois, punha-se no fio do correio a ver jogar o fito, como quem fuma um cigarro. Desmancha-prazeres, o filho da professora aproximava-se a assobiar... Ah, mas isso é que não. Brincadeiras com fisgas, santa paciência. Ala! Dava corda ao motor, e ó pernas! Numa salve-rainha, estava no Ribeiro de Anta. Aí, ao menos, ninguém o afligia. Podia fartar-se em paz de sol e grainha. 
- Que mais quer um homem?! - O compadre lá sabe... 
- Bem... Tudo é preciso... São necessidades da natureza... Desde que não se abuse... E continuava, muito santanário, a catar o piolho. Depois, metia-se no banho. 
- Rica areia tem aqui o cantoneiro, sim senhor! D. Micas concordava. E só as Trindades o traziam ao beiral da Casa Grande.
 Adormecia, então. E a sono solto, como um justo que era, passava a noite. Acordava de madrugada, quando a manha rompia ao sinal de Tenório, o galo. Isto, no tempo quente. Porque no frio, caramba!, ou usava duma táctica lá sua, ou morria gelado. Aquelas noites da Campeã, no Janeiro, só pedras é que podiam aguentá-las. E chegavase à chaminé. Com o bafo do fogão sempre a coisa fiava de outra maneira. 
Ah, lá defender-se, sabia! A experiência para alguma coisa lhe havia de servir. Se via o caso mal parado, até durante o dia punha o corpo no seguro. Bastava o vento soprar da serra. Largava a comedoria, e - forro da cozinha! Não havia outro remédio. Tudo menos uma pneumonia!
 A classe tinha realmente um grande inimigo - o inverno. Mal o Dezembro começava, só se ouviam lamúrias.
 - Isto é que vai um ano, Ti Ladino! 
A Cacilda, com filhos serôdios, e à rasca para os criar. 
- Uma calamidade, realmente. Mas vocês não tomam juízo! É cada ninhada, que parecem ratas! 
- O destino quer assim...
 - Lérias, mulher! O destino fazemo-lo nós... 
Solteirão impenitente, tinha, no capítulo de saias, uma crónica de pôr os cabelos em pé. Tudo lhe servia, novas, velhas, casadas ou solteiras. Mas, quando aparecia geração, os outros é que eram sempre os pais da criança. 
- Se todos fizessem como eu... 
- Ora, como vossemecê!... Cala-te, boca. Mudemos de conversa, que é melhor... Segue-se que não sei como lhes hei-de matar a fome... - gemia a desgraçada.
 - Calculo a aflição que deve ser... 
£ o farsante quase que chorava também. Quisesse ele, e a infeliz resolvia num abrir e fechar de olhos a crise que a apavorava. Pois sim! Olha lá que o safado ensinasse como se ia ao galinheiro comer os restos!... Enchia primeiro o papo e, depois, a palitar os dentes, fazia coro com a pobreza.
 - É o diabo... Este mundo está mal organizado... 
Um monumento! Como ele, só mesmo o padre Gonçalo. Quanto maior era a miséria, mais anediado andava.
 - Aquilo é que tem um peito! Numas brasas, com uma pitada de sal... 
Mas já Ladino ia na ponta da unha. Não queria quebrar os dentes de ninguém. Carne encoirada, durásia... E acrescentava:
 - Isto, se uma pessoa se descuida, quando vai a dar conta está feita em torresmos. Que tempos!
 O mais engraçado é que já falava assim há muitos anos, com um sebo sobre as costelas, que nem cabrito desmamado. 
De tal maneira, que o Papo Magro, farto daquela velhice e daquelas manhas, a certa altura não pôde mais, e até foi malcriado. 
- Quando é esse funeral, ti Ladino? 
Mas o velho raposão, em vez de se dar por achado, respondeu muito a sério, como se fizesse um exame de consciência: 
- Olha, rapaz, se queres que te fale com toda a franqueza, só quando acabar o milho em Trás-os-Montes. 
Miguel Torga, in Os Bichos

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